sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Câmara terá primeiro parlamentar com deficiência visual na próxima Legislatura

Primeiro deputado federal cego diz que terá mandato interativo com a população, com foco no combate à corrupção governamental e na inclusão das pessoas com deficiência.
Felipe Rigoni é capixaba de Linhares, tem 27 anos de idade, é do PSB e, em 7 de outubro, recebeu mais de 84 mil votos, a segunda maior votação para deputado federal no Espírito Santo. A cegueira total veio aos 15 anos de idade, após várias cirurgias para conter uma inflamação ocular chamada uveíte, detectada ainda na infância.
Rigoni conta que, depois de uma difícil adaptação à nova realidade, percebeu que sua independência só viria por meio da educação. Formou-se em engenharia de produção pela Universidade Federal de Ouro Preto, em Minas Gerais, e fez mestrado em políticas públicas, na Universidade de Oxford, na Inglaterra. Também já foi líder estudantil e do movimento de empresas juniores. Em 2016, perdeu a eleição para vereador de Linhares, mas agora chega à Câmara dos Deputados, depois de ter passado pela ONG RenovaBR, movimento de apoio à formação de novas lideranças políticas.
Felipe Rigoni afirmou que sua eleição como deputado federal foi resultado do trabalho de mais de 2 mil voluntários que o ajudaram nas campanhas de rua e pelas redes sociais. Ele conta como pretende conduzir o mandato na Câmara.
"Eu vou ter um mandato compartilhado e um conselho parlamentar, com pessoas da sociedade civil e especialistas. Também vou ter um aplicativo de interação direta com a população capixaba, para a qual fui eleito para representar. Teremos três grandes linhas de atuação: a eficiência do governo, com combate à corrupção, transparência e participação popular para garantir decisões melhores e mais eficientes; a educação básica, com enfoque claro na inclusão e na diversidade, por conta da minha deficiência e das necessidades das pessoas com deficiência e das outras minorias; e, por último, o fortalecimento da economia".
Rigoni já se reuniu (em 18/10) com representantes de várias áreas técnicas da Câmara a fim de garantir uma atuação parlamentar eficiente desde a posse, prevista para 1° de fevereiro de 2019. Algumas readequações na estrutura da Casa e nas tecnologias assistivas já disponíveis vinham sendo articuladas, mas a coordenadora de acessibilidade da Câmara, Adriana Januzzi, citou o lema da Convenção sobre Direitos da Pessoa com Deficiência - "nada sobre nós sem nós" - para ressaltar a necessidade de uma conversa direta com o deputado eleito em busca da superação de demandas específicas.
"A gente vai ter que adaptar alguns sistemas para fazer a conexão com o software de leitura de tela que ele usa. A gente vai trabalhar a colocação de piso tátil e mapas táteis em alguns locais. Estamos trabalhando em um projeto de GPS interno, que funciona por bluetooth, e que também vai ajudar muito na locomoção e na mobilidade das pessoas. A gente já tem placas de sinalização em braile e o nosso site é acessível. Desde 2004, a gente vem atuando para que os ambientes, produtos, serviços e informações sejam acessíveis a pessoas com todos os tipos de deficiência".
Felipe Rigoni terá direito a apartamento funcional e a gabinete parlamentar adaptados para cego e também acessíveis a pessoas com outros tipos de deficiência que quiserem entrar em contato com o deputado eleito.
Além de receber visitas de deficientes visuais diariamente, a Câmara dos Deputados tem, atualmente, dois servidores e um estagiário cegos, além de vários outros funcionários com baixa visão. Recentemente, a Casa teve três deputados cadeirantes (Walter Tosta, Rosinha da Adefal e Mara Gabrili, que ainda é deputada).
Nos últimos anos, a Câmara tem ampliado a instalação de rampas, elevadores adaptados e triciclos motorizados nas portarias. Vigilantes, brigadistas e atendentes dos restaurantes e lanchonetes passam por capacitações frequentes. A TV Câmara conta com linguagem de libras e legendas em tempo real para surdos. Nos plenários das comissões, a tecnologia assistiva de aro magnético facilita a comunicação dos usuários de aparelhos auditivos.
Reportagem - José Carlos Oliveira - RADIOAGÊNCIA

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